Analise o fragmento do caso Elisabeth, apresentado por Freud: Aos 24 anos, Elisabeth chegou ao consultório de Freud por indicação de outro médico, que buscava uma explicação para as fortes dores que ela sentia nas pernas. Embora Freud reconhecesse nela certa tendência a dores musculares, logo percebeu que essa condição física não bastava para explicar o quadro. A jovem mantinha uma ligação muito estreita com o pai, que costumava descrevê-la como alguém de temperamento firme, chegando a chamá-la de “insolente” e “convencida”. Esse modo de tratá-la contribuiu para que ela se afastasse de aspectos de sua feminilidade. Com a morte do pai, que já estava doente, Elisabeth tentou recompor o equilíbrio da família, mas logo a mãe adoeceu, o que a levou a assumir os cuidados maternos. Nesse período, viu as duas irmãs se casarem. Desaprovava o esposo da primeira e acabou desenvolvendo um sentimento amoroso pelo marido da segunda. Foi nesse ponto que Freud identificou a origem psíquica das dores: elas estavam articuladas a essa paixão proibida (Freud, 1893/2016). Contudo, Freud observou que as dores não surgiram apenas após o envolvimento afetivo pelo cunhado. Elas já se manifestavam antes, o que indicava que outros elementos também participavam do sofrimento. O primeiro episódio significativo ocorreu quando ela se ausentou por várias horas, deixando o pai acamado, para ir a uma festa onde estaria um rapaz de quem gostava. Naquela noite, o estado do pai piorou, e Elisabeth mergulhou em intensa culpa (Freud, 1893/2016). O agravamento de suas dores coincidiu tanto com essa culpa quanto com o sentimento posterior pelo cunhado. Ao reconstituir a história de Elisabeth, a doença da mãe, a morte do pai, o ressentimento diante do casamento da irmã, a maneira crítica como o pai a via e a paixão pelo cunhado, Freud mostrou que ela carregava uma carga de culpa desproporcional. Primeiro, porque internalizou a ideia paterna de que seu temperamento dificultaria qualquer casamento. Depois, porque, caso concretizasse o desejo pelo cunhado, não poderia zelar pela mãe doente. Além disso, sentia que era moralmente errado invejar a irmã e nutrir sentimentos amorosos pelo marido desta. Por fim, carregava ainda a culpa por experimentar certa satisfação com a morte da irmã (Freud, 1893/2016). Referência Bibliográfica: FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. (Obras completas, v. )
2) Agora imagine que você é psicanalista e recebe em sua clínica a paciente Elisabeth Von R, no decorrer das sessões através associação livre, método central da psicanálise, criado por Freud, no qual o paciente é convidado a falar tudo o que vier à mente, sem censura, seleção ou organização prévia. Após algumas sessões você precisa identificar os seguintes elementos para ajudar a Elizabeth:
Análise
1.
Identificação dos sintomas
No caso de Elisabeth, o principal sintoma
apresentado são as fortes dores nas pernas, que não encontravam uma
explicação física suficiente. Freud percebeu que essas dores estavam
relacionadas às experiências emocionais vividas por ela.
Além da dor física, Elisabeth apresentava culpa,
sofrimento emocional, conflitos familiares, luto e sentimentos amorosos que
considerava inadequados, principalmente em relação ao cunhado. Dessa forma,
o corpo parecia expressar aquilo que ela tinha dificuldade de reconhecer e
falar abertamente.
2.
Identificação do desejo
O desejo mais evidente no caso é o sentimento
amoroso de Elisabeth pelo cunhado, marido de sua irmã. Esse desejo
provocava um conflito interno, pois ela sabia que, de acordo com seus valores e
sua situação familiar, não deveria alimentar aquele sentimento.
Ela vivia, portanto, uma contradição entre aquilo
que desejava e aquilo que acreditava que deveria desejar ou fazer.
Essa dificuldade de lidar com o próprio desejo contribuiu para sua angústia e
para o desenvolvimento dos sintomas.
3.
Identificação do retorno do recalcado
O retorno do recalcado aparece principalmente por
meio das dores nas pernas. Elisabeth não conseguia expressar ou elaborar
conscientemente determinados sentimentos, como o desejo pelo cunhado, a culpa,
o ressentimento e a ambivalência diante das situações familiares.
Esses conteúdos, que não encontravam uma forma
consciente de expressão, retornavam através do corpo. Assim, na interpretação
de Freud, a dor física passa a representar também uma forma de manifestação
de um sofrimento psíquico.
4. Como
aplicaria a técnica da Psicanálise
Como psicanalista, eu procuraria inicialmente
oferecer a Elisabeth um ambiente seguro e acolhedor, no qual ela pudesse
falar livremente sobre aquilo que sente, sem medo de ser julgada.
Utilizaria principalmente a associação livre,
convidando-a a falar sobre suas lembranças, sentimentos, sonhos, pensamentos e
acontecimentos que surgissem espontaneamente durante as sessões. A partir dessa
fala, buscaria compreender, junto com ela, as relações entre suas dores e os
acontecimentos emocionalmente importantes de sua vida.
Também trabalharia com a interpretação dos
conteúdos inconscientes, procurando ajudá-la a perceber os conflitos
existentes entre seus desejos, sentimentos e valores. A intenção não seria
simplesmente eliminar a dor, mas compreender o que o sintoma estava
expressando.
Com o decorrer do tratamento, Elisabeth poderia reconhecer
e elaborar seus sentimentos de culpa, luto, amor, ciúme e desejo,
compreendendo que ter determinados sentimentos não significa necessariamente
agir de acordo com eles.
Em síntese, o
trabalho psicanalítico buscaria ajudar Elisabeth a colocar em palavras aquilo
que até então estava sendo manifestado pelo corpo. Ao compreender e elaborar
esses conflitos, ela poderia construir uma relação mais consciente com seus
sentimentos e com sua própria história.

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