No âmbito corporativo, a motivação transcende os limites das práticas superficiais.

Por: Marcos Sampaio, Unifacs_02 de setembro de 2025.

O ambiente organizacional contemporâneo apresenta desafios constantes que exigem, além de planejamento estratégico, uma gestão eficiente dos recursos humanos. Dentre os fatores que mais impactam o desempenho organizacional, destaca-se a motivação, que pode ser compreendida como um motor interno que direciona os comportamentos dos indivíduos na busca por determinados objetivos.

No âmbito corporativo, a motivação transcende os limites das práticas superficiais, como festas, dinâmicas recreativas ou ambientes descontraídos. Embora esses elementos possam contribuir para o bem-estar, eles não são, por si só, capazes de gerar engajamento sustentável nem altos níveis de produtividade. Como o Texto I destaca, muitos gestores incorrem no erro de confundir engajamento com motivação, acreditando que proporcionar momentos de lazer resolverá, de forma automática, os desafios relacionados ao comprometimento dos colaboradores.

Por outro lado, o Texto II oferece uma abordagem mais robusta e teórica, ao apresentar a Teoria da Expectativa, proposta por Victor Vroom, um dos pensadores mais influentes na área da psicologia organizacional. Segundo essa teoria, a motivação é um processo racional e consciente, no qual o indivíduo avalia suas próprias expectativas sobre o trabalho, os esforços que deve empreender, os resultados que pode alcançar e as recompensas que obterá.

Diante desse panorama, é fundamental compreender que a motivação é um processo complexo, composto por três elementos interdependentes: expectativa, instrumentalidade e valência. A análise detalhada desses componentes permite entender como a motivação impacta diretamente o desempenho e os resultados organizacionais.

1. Expectativa: A Relação entre Esforço e Desempenho

O primeiro elemento da Teoria da Expectativa é a expectativa, que se refere à crença do indivíduo de que seu esforço pessoal levará a um determinado nível de desempenho. Trata-se de uma avaliação subjetiva, na qual o colaborador analisa se possui as competências, habilidades, recursos e condições necessárias para realizar uma tarefa com sucesso.

Por exemplo, se uma empresa exige que seus funcionários dominem uma tecnologia específica, mas não oferece treinamento adequado, é provável que os colaboradores percebam que, independentemente do esforço que empreguem, não alcançarão o desempenho esperado. Isso gera um enfraquecimento da expectativa, levando, consequentemente, à desmotivação.

Assim, a expectativa está diretamente ligada à autoconfiança e à percepção de autoeficácia. Gestores que investem no desenvolvimento das competências dos seus colaboradores — por meio de capacitações, treinamentos, feedbacks construtivos e suporte adequado — aumentam significativamente o nível de expectativa dos profissionais, criando um ambiente propício para o surgimento de comportamentos produtivos e engajados.

Por outro lado, quando os funcionários percebem que seus esforços não são suficientes para atingir os resultados esperados, seja por falta de recursos, orientação ou clareza nos objetivos, a consequência natural é a queda do comprometimento, do desempenho e, por fim, dos resultados organizacionais.

2. Instrumentalidade: A Relação entre Desempenho e Recompensa

O segundo elemento da teoria é a instrumentalidade, que diz respeito à percepção do indivíduo de que seu desempenho efetivo resultará em uma recompensa específica. Em outras palavras, trata-se da crença de que existe uma relação clara e direta entre trabalhar bem e receber aquilo que é prometido ou desejado.

Neste ponto, entram as práticas de reconhecimento, valorização e meritocracia dentro da organização. Se um colaborador percebe que, ao atingir suas metas, receberá um bônus, uma promoção, um reconhecimento público ou qualquer outro tipo de recompensa, sua motivação tende a aumentar. No entanto, se o ambiente organizacional transmite sinais de que os esforços não são devidamente reconhecidos — como promoções que não seguem critérios claros ou bonificações que não consideram o desempenho — a instrumentalidade se rompe, e, como consequência, a motivação diminui.

É interessante perceber que a instrumentalidade não se limita a recompensas materiais. Ela também abrange aspectos intangíveis, como prestígio, status, reconhecimento social, desenvolvimento pessoal e profissional. Portanto, para que a instrumentalidade seja eficaz, os gestores precisam criar sistemas transparentes de avaliação de desempenho, além de assegurar que as recompensas sejam entregues de forma justa e coerente com os esforços realizados.

Quando os colaboradores percebem que o desempenho não está necessariamente vinculado às recompensas, surgem sentimentos de frustração, injustiça e desengajamento. Isso pode, inclusive, gerar impactos negativos na cultura organizacional, alimentando o cinismo, a apatia e a resistência às metas estabelecidas.

3. Valência: O Valor Atribuído à Recompensa

O terceiro pilar da Teoria da Expectativa é a valência, que corresponde ao valor subjetivo que o indivíduo atribui à recompensa oferecida. Nem toda recompensa possui o mesmo peso ou significado para todas as pessoas. O que é valioso para um colaborador pode ser irrelevante para outro.

Por exemplo, um funcionário pode valorizar mais um plano de desenvolvimento de carreira do que um bônus financeiro imediato. Outros podem priorizar horários flexíveis, qualidade de vida ou reconhecimento social. Portanto, a valência depende diretamente das necessidades, desejos, expectativas e momentos de vida de cada colaborador.

Este aspecto evidencia a importância de práticas de gestão que sejam personalizadas e centradas no ser humano. Organizações que adotam uma abordagem genérica, oferecendo recompensas padronizadas, correm o risco de não impactar efetivamente a motivação dos seus colaboradores. Por outro lado, aquelas que realizam escutas ativas, conhecem os perfis, as aspirações e os valores individuais dos seus times conseguem oferecer incentivos mais alinhados às reais necessidades, elevando a valência das recompensas.

Além disso, a valência também pode ser influenciada pela cultura organizacional e pelos contextos sociais. Em ambientes de alta competitividade, por exemplo, recompensas financeiras podem ter maior peso. Já em organizações orientadas para causas sociais, o reconhecimento simbólico, o alinhamento com propósitos e o impacto social podem ter mais valor.

 

A Interdependência dos Três Elementos

É importante destacar que os três elementos — expectativa, instrumentalidade e valência — estão profundamente interligados. A ausência ou enfraquecimento de qualquer um deles compromete todo o processo motivacional.

Imagine um cenário onde um colaborador acredita que seu esforço pode gerar um bom desempenho (expectativa alta), mas percebe que esse desempenho não será reconhecido pela empresa (instrumentalidade baixa). Nesse caso, sua motivação será reduzida. Da mesma forma, se há clareza de que o desempenho é recompensado, mas a recompensa não é considerada relevante para aquele indivíduo (valência baixa), também não haverá motivação significativa.

Portanto, o papel do gestor é atuar simultaneamente nesses três eixos, garantindo:

  • Que os colaboradores acreditem que podem realizar suas tarefas (expectativa);
  • Que percebam que seu bom desempenho será recompensado (instrumentalidade);
  • E que as recompensas sejam percebidas como valiosas e significativas (valência).

Superando a Visão Superficial da Motivação

O Texto I alerta sobre um problema recorrente nas organizações: a tendência de muitos gestores confundirem momentos de lazer e iniciativas pontuais de bem-estar com estratégias reais de motivação. Embora ações como eventos, dinâmicas de descontração ou ambientes agradáveis sejam importantes para a satisfação no trabalho, elas não substituem os elementos estruturantes da motivação no longo prazo.

A verdadeira motivação organizacional surge quando há clareza de metas, recursos adequados, reconhecimento do desempenho e recompensas que façam sentido para cada indivíduo. Ignorar essa lógica leva ao fracasso das estratégias de gestão de pessoas, resultando em baixos níveis de produtividade, alta rotatividade, desengajamento e queda dos resultados organizacionais.

 

Conclusão

A motivação, segundo a Teoria da Expectativa de Vroom, não é um fenômeno aleatório, nem depende exclusivamente de fatores externos e circunstanciais. Ela é fruto de um processo cognitivo, racional e intencional, no qual os colaboradores avaliam suas chances de sucesso, as consequências dos seus esforços e o valor das recompensas.

Organizações que compreendem essa dinâmica conseguem alinhar os interesses individuais aos objetivos coletivos, criando ambientes onde as pessoas se sentem capazes, reconhecidas e valorizadas. Isso resulta não apenas em maior produtividade, mas também em um clima organizacional mais saudável, inovador e colaborativo.

Por fim, gestores que querem realmente impulsionar seus times rumo à alta performance precisam abandonar práticas superficiais e adotar uma abordagem mais profunda e estruturada da motivação, construindo relações baseadas na confiança, no reconhecimento e no alinhamento genuíno de expectativas. É esse o caminho para alcançar resultados sustentáveis e expressivos no contexto empresarial contemporâneo.

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